Cartas aos homens: quando se rompe com Deus

 A Palavra nunca foi a palavra de


Deus, sempre foi a palavra dos


homens


que buscam na palavra a própria


salvação


Criaram a dualidade do mundo


Bem e mal para terem com quem


lutar e a que buscar


Não foram capazes, os homens


sanctos


De serem por si mesmos então


criaram um pai que os pudesse amparar


Negaram o vazio


a sensação insuportavelmente


esmagadora do desamparo em que


existimos


Nunca em suas vidas perguntaram


se se o Deus para o qual rezam de


fato, está ainda ali


Se a realidade não é fruto da cega


contingência?


Qualquer coisa, algo mais, algo menos, além ou aquém que não seja a velha sólida crença na negação do desamparo da vida e da própria capacidade de


realizar, criar e expandir


metamorfosear-se


Pensam que resolvidos os problemas do espírito ter-se-ão resolvido o peso psíquico da existência e do vazio de sentido que ela carrega consigo.


Não seriam as crenças, a religiosidade e a espiritualidade o intermédio entre o homem e as contingências - a realidade hostil que o permeia? Se Deus existe, eu não sei e não chegaremos a uma solução e, na verdade, talvez uma resposta definitiva não faça bem à humanidade e às forças que a sustentam.


Mas se Deus um dia existiu ele foi tornando-se cada vez menos necessário e importante porque alguém um dia despertou de um longo período de latência e se pôs a perceber o mundo tal qual sempre foi: uma vasta esfera, infinitude de possibilidades, de criação e de potências.




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