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Mostrando postagens de 2020

A verdade escarrada

  A verdade escarrada   Um tapa, um soco ou um abraço? Eu preciso De um bom tapa na face e um soco no estômago Para tirar o foco da dor sem fim Que é te ver assim tão doente de si Pensei por esses dias que já fazia Algum tempo que não escrevia Versos duros ou amolecidos Pela dor de existir ou sentir Sob formas tão estranhas Não estou me importando tanto Com as palavras que coloco Apenas preciso escarrá-las Dessa sombra que em mim habita e ocupa Espaços demais Se pensarmos bem, a dor tem sua importante função De constantemente nos fazer lembrar de que estamos vivos

Ferida

Ferida que me abriu a janela ou melhor, a porta do porão basement door da minha casa de dentro trouxe peças e tralhas antigas que  eu nem sabia que ali ainda  estavam todas essas coisas cheias  de  poeira e mofo tanto a ser organizado empacotado reformado ou simplesmente descartado acaricio meus lábios com as unhas azul esverdeadas polidas bem acabadas e  observo a ferida que me fizeram no dorso da mão direita descanso por mais dez minutos antes de voltar à minha leitura do Totem e Tabu para o trabalho de antropologia hoje o chuveiro me chorou e me secou da cachoeira que jorrava dos meus olhos tristes a ferida jorrou sangue os meus olhos são olhos tristes ou tristes olhos? a ferida me abarca com agressividade e eu, vacilante, trêmula, não me esquivo só atravesso

Roman a cle

Pensa no meu amor de hoje que  sempre dura mais que o meu  amor de ontem Num roman à clef tempo e narrativa tão real Que me vem à memória é abraço teu Ouve um reggae comigo e me acompanha na travessia que não se recusa transpassa pelo nosso beijo entrelaçado Sou minha, mas também sou tua de todo e a cada passagem que percorre a nossa vida nossos pés entrelaçam um pouco mais Caroline Cunha

Domingo

Domingo, 12 de julho de 2020 Hoje fez-me uma visita o vazio desconcertante desconcertado. Estreito-me sob a minha própria sombra e encolho nela meu rosto e estranheza. Ouço um rumor de vozes dentro da minha cabeça e elas são tão silenciosas que mal posso distingui-las. Tenho encontrado com eus passados e eles têm clamado pela minha atenção. A busca pela resolução dos infortúnios se dá no âmago do coração. Estreiteza que me espreita angústia que não cala e não faz calar. As aflições aqui me trazem sou um corpo imantado pela provação descobrir o que me cabe e constitui. Meu moinho é movimento, movimento é traço meu. Caroline Cunha

O Corpo

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O corpo enquanto instância O corpo representativo O corpo representado O corpo que não quer ser corpo O corpo que escapa ao próprio Corpo O corpo imanente O corpo rejeitado e acolhido O corpo desprendido de sua própria Carne O corpo materializado O corpo não materialista O corpo etéreo O corpo fluido impermanente O corpo agregado O corpo dolorido O corpo curado O corpo telúrico O corpo inegociável O corpo inato O corpo irreparável O corpo na pedra fria O corpo carregado O corpo saltitante O corpo estremecido O corpo na condição de corpo se faz Corpo enquanto é corpo O corpo tangente O corpo naquilo que lhe cabe O corpo e o domínio do corpo O corpo

Conversas com Clarice

Metáforas e Quarentenas

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O mundo se distancia de mim e eu me distancio dele. Sou habitante e observador externo de mim mesmo ao mesmo tempo. Estranho-me com frequência. Acordo de um cochilo no meio de uma tarde de sábado, ponho os chinelos, sigo até o banheiro e não me reconheço no espelho. Estranho de mim mesmo. Frequentemente sonho que estou acordado e com muito mais frequência acordo pensando estar num sonho. Por vezes sinto que não sinto mais nada. Parei de sentir tudo, inclusive a dor. Noutro segundo eu já sinto tudo e o mundo me engole com seus estímulos incessantes. Estranho-me com frequência. Quem está louco reconhece que enlouqueceu? Sinto que sou duas pessoas. Uma me puxa para o abismo e a outra paira na janela de minha psique, esperando a outra voltar para que se reintegrem. O mundo é um estranho, e não seria estranho se ele ficasse embaçado. Muitas vezes fica. O mundo. Ou sou eu? Embaçado embaraçado turvo telas de Van Gogh. O embaçamento é só memória hoje. Amanhã, já não sei. Não sei. Estranho-me ...
A cada dia, algo novo floresce dentro de mim.  Raízes-do-coração inclinam para fora do meu peito perfurando e formando cavidades na pele Raízes que querem conhecer o mundo. Raízes que querem florir. Raízes que me integram. Integramo-nos. Caroline Cunha

Cápsula Branca

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Mudam-se os cenários Permanece a velha sensação  Mudam-se os tempos E as pessoas, e o coração Mudam-se os contextos Permanecem os mesmos critérios Mudam-se os meus pretextos Permanece o pitoresco adultério De mim mesmo Mudam-se as veias da maturidade Mudam-se as artérias de lugar Mudam-se os andares do Grande Edifício e Do Grande Elevador que me levam a qualquer lugar, lugar-qualquer Permanece a branca, onírica, real, destemida cápsula Viajando, me transportando, do passado ao presente ao futuro e à qualquer outro lugar, lugar-qualquer-lugar Sou prisioneiro de sua captura e servo, com ânsias de se libertar

Minha Condição

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MINHA CONDIÇÃO Quando vi a sentença De minha condição Logo pensei: sim, sou eu Sem distinção, nenhuma diferença A mesma solidão De estar imerso neste breu De minha sempre sólida condição Dos xamãs e dos orixás Do ameríndio pensamento me vejo em meu reflexo fluído é o lugar em que minha mente jaz Lugar... que me preenche de acalento E o meu coração não deixa destituído Deste saber ancestral, divino Desta infinita sabedoria E da capacidade de sonhar Carrego no ventre da minha alma O espírito perdido na insígnia Vejo em meu corpo desdobrar Esta substância onusta de calma E do eterno juízo da eterna permanência Fluindo no permanente rio de minha eterna condição. Anima(aspecto feminino das almas)