O mundo se distancia de mim e eu me distancio dele. Sou
habitante e observador externo de mim mesmo ao mesmo tempo. Estranho-me com
frequência. Acordo de um cochilo no meio de uma tarde de sábado, ponho os chinelos,
sigo até o banheiro e não me reconheço no espelho. Estranho de mim mesmo. Frequentemente
sonho que estou acordado e com muito mais frequência acordo pensando estar num
sonho. Por vezes sinto que não sinto mais nada. Parei de sentir tudo, inclusive
a dor. Noutro segundo eu já sinto tudo e o mundo me engole com seus estímulos
incessantes. Estranho-me com frequência. Quem está louco reconhece que enlouqueceu?
Sinto que sou duas pessoas. Uma me puxa para o abismo e a outra paira na janela
de minha psique, esperando a outra voltar para que se reintegrem. O mundo é um
estranho, e não seria estranho se ele ficasse embaçado. Muitas vezes fica. O
mundo. Ou sou eu? Embaçado embaraçado turvo telas de Van Gogh. O embaçamento é
só memória hoje. Amanhã, já não sei. Não sei. Estranho-me com frequência.
Loucura tem nome e sobrenome. Nascemos para enlouquecer e morremos para
recobrar a sanidade. Mil e uma vezes e tantas outras mais. É tudo sonho. Nada disso
é real. Somos todos loucos e dissimulados. O mundo nos quer assim, loucos
louquinhos de pedra. A vida cobra. Quem nunca enlouqueceu nesta vida que atire
a primeira pedra. A loucura é a metáfora.
Comentários
Postar um comentário